A Marinha Brasileira na era dos contratorpedeiros 1942 -1970: uma análise das relações entre tecnologia naval e a política

A Marinha Brasileira na era dos contratorpedeiros 1942 -1970: uma análise das relações entre tecnologia naval e a política

Ludolf Waldmann Júnior
Mestrando em Ciência Política (UFSCar)
ludolfjr@hotmail.com

Resumo: A presente investigação, baseada em pesquisa bibliográfica e documental, se propõe a analisar o processo de modernização da Marinha brasileira durante o período da 2ª Guerra Mundial até o início dos anos de 1970. Como estudo na área de defesa esta procura comparar a modernização da Marinha com a em curso nas potências militares; acompanhar as sucessivas administrações navais e suas políticas de aquisição relacionando-as com as políticas governamentais e, compreender o processo decisório naval e as razões da mudança de fornecedor de material em finais da década de 1960. Neste período, as escolhas tecnológicas da Marinha foram, em grande medida, determinadas pelas conjunturas políticas pelas quais o Brasil passava, sobretudo em termos de relações militares e políticas com os EUA.

1 – De uma maneira geral, do que trata a sua pesquisa? Qual é a área temática?
A pesquisa que venho desenvolvendo investiga como ocorreu o processo de modernização tecnológica da Marinha Brasileira durante o período de 1942 a 1970, na área temática de estudos de defesa.
2 – Qual é a problemática da presente pesquisa?
A problemática desta pesquisa consiste em compreender quais foram as relações entre a política e a tecnologia naval no caso brasileiro durante o período de 1942 a 1970, com ênfase na questão da defasagem tecnológica brasileira em relação às marinhas das potências militares e nas políticas de aquisição de material flutuante desenvolvidas, a fim de verificar se houve continuidade ou ruptura.
3 – Qual é o principal debate/referencial teórico que sua pesquisa utiliza?
O trabalho parte das discussões entre teóricos da guerra e das relações internacionais que discutem a influência das tecnologias sobre a política interna, externa e militar de determinados países, assim como a influência de suas políticas sobre o desenvolvimento tecnológico. Neste sentido, o projeto assume que a tecnologia tem influência na política e a aquisição de tecnologia pode vir de demandas tanto de políticas militares na paz como na guerra. As escolhas tecnológicas são condicionadas, entre outros fatores, pelo nível de desenvolvimento do país, mas há um grau de autonomia na tomada de decisões que torna os processos de modernização militares temas importantes de análise para a Ciência Política. Outro referencial importante para o projeto foi o modelo teórico dos “saltos tecnológicos” de João Roberto Martins Filho. Para este autor, o Brasil não conseguiu acompanhar o desenvolvimento tecnológico das marinhas das grandes potências, uma vez que se industrializou tardiamente. Para resolver este problema, o país recorria à importação de navios de guerra; as aquisições com elevados níveis de tecnologia só poderiam ser importadas em conjunturas em que isso fosse possível. Assim, no século XX houve três grandes modernizações: em 1910, com a aquisição de encouraçados dreadnoughts; durante a Segunda Guerra Mundial, com a incorporação de contratorpedeiros americanos equipados de radar e sonar; na década de 1970, com a aquisição de fragatas britânicas equipadas com mísseis e sistemas eletrônicos.
4 – Quais são os objetivos?
O projeto tem como objetivo analisar a modernização tecnológica da Marinha Brasileira no período que vai da Segunda Guerra Mundial ao ano de 1970, comparando-a com a modernização tecnológica em curso nos países avançados. Para isso, como estudo na área de defesa, busca acompanhar, em detalhe, as diferentes administrações navais e suas políticas de aquisições de material flutuante (por meio de empréstimo ou compra), em relação com as hipóteses estratégicas do período, a fim de verificar se houve continuidade ou ruptura. Procura entender as relações entre as políticas da Marinha e as políticas governamentais, com ênfase também na ruptura e continuidade e busca entender o que foi o cotidiano a bordo na era da guerra anti-submarino. Finalmente, como trabalho de Ciência Política, procura analisar o processo decisório naval em sua relação com o contexto externo e as políticas internas. Como objetivo final, visa entender como surgiu a decisão de adquirir navios fora dos Estados Unidos, de acordo com especificações baseadas em nossas necessidades e se essa decisão foi precedida de mudanças no pensamento estratégico.
5 – Quais são as suas hipóteses?
Nossa hipótese é que, durante todo o período estudado, não houve grandes modificações em relação à política de aquisição de material flutuante. A experiência da Segunda Guerra Mundial, sob o comando norte-americano, possibilitou um “salto tecnológico” bastante importante para a Marinha, porém esta subordinação trouxe profundos efeitos de dependência material e intelectual na força naval, que se manteve em grande parte intacta durante os três regimes que o Brasil passou no período estudado (1942-1970). Acreditamos que a superação dessa dependência dos norte-americanos só foi possível, sobretudo devido às mudanças na política externa desse país, no que concerne principalmente à disponibilidade de transferência de recursos militares. Também é interessante pontuar que durante o regime militar, determinadas políticas militares tornavam mais exequíveis as possibilidades de grandes aquisições de material bélico, em especial pensando no projeto de “Brasil Potência”, que foram importantes para que a Marinha pudesse dar um “salto tecnológico” através de aquisições iniciadas em 1970.
6 – Qual a metodologia adotada na pesquisa? Quais são as etapas?
Para a primeira etapa, que visa entender a defasagem tecnológica, compararemos as aquisições e modernizações na Marinha Brasileira com as suas congêneres das grandes potências. Para acompanhar as diferentes administrações navais do período, faremos uma análise documental sobre os Relatórios Ministeriais do antigo Ministério da Marinha, acordos de transferência de navios e dos Relatórios de Estado-Maior da Armada, com o suporte da literatura sobre história naval brasileira no período, para compreender se houve ou não continuidade nas políticas navais das diferentes administrações da Marinha e governos federais. Após isso, relacionaremos as políticas de aquisição de material flutuante com análises sobre as conjunturas políticas interna e externa, com o objetivo de entender a evolução tecnológica da Marinha no período, situando-a no contexto das políticas em âmbito nacional e internacional.
7 – Onde podemos encontrar mais sobre o seu trabalho?
Durante a graduação em Ciências Sociais, realizada na UFSCar, me interessei pela área de defesa e desenvolvi um trabalho de iniciação científica analisando o processo de modernização da Marinha brasileira durante o período entre as guerras mundiais, que serviu de base para o Trabalho de Conclusão de Curso – “A Marinha Brasileira no entre-guerras (1919-1939): uma análise processo de modernização do equipamento“. Este foi apresentado no XVIII Congresso de Iniciação Científica da UFSCar, em 2010, e está disponível nos anais deste evento. A atual pesquisa que desenvolvo no mestrado constitui uma sequência destes primeiros trabalhos, com uma análise mais aprofundada e um espaço temporal ampliado, compreendendo cerca de trinta anos.

0 Responses to “A Marinha Brasileira na era dos contratorpedeiros 1942 -1970: uma análise das relações entre tecnologia naval e a política”


  • No Comments

Leave a Reply